— Desculpa esfarrapada.
— É a verdade. — Mas havia uma outra verdade, e ela tinha senso de justiça suficiente para admiti-lo. — Mesmo assim, a culpa é toda minha. Fiquei preocupada tentando seduzi-lo a ver as coisas do meu jeito, e parei de me concentrar no xadrez.
— Foi isso mesmo.
Lucia afundou na cadeira, desencorajada. Descansando o cotovelo na mesa e com o rosto na mão, ela olhou fixamente para o tabuleiro e observou as mãos dele porem as peças de volta nos seus lugares.
— E nem funcionou — acrescentou ela desanimada, com o orgulho feminino ferido. — é um desperdício gastar os meus encantos com o senhor.
As mãos dele pararam.
— Eu não diria isso.
A súbita intensidade da voz dele a surpreendeu. Ela levantou os olhos e viu que ele a observava. À luz da lâmpada, o rosto dele estava tão plácido e impassível como sempre, mas havia alguma coisa naqueles olhos cinzentos, alguma coisa mais para prata derretida do que para aço polido e frio, e ela prendeu a respiração.
— O senhor é humano, afinal de contas — sussurrou ela, atônita.
— Carne e osso, como qualquer outro homem. — Ele retomou a arrumação das peças de xadrez. — E, ao que parece, tão suscetível quanto qualquer homem aos encantos de uma mulher bonita.
Ela se animou com aquelas palavras. Inclinou-se para a frente na cadeira, rápida em aproveitar o momento.
— Então, isso quer dizer que eu posso fazer a minha própria lista?
Ele nem mesmo hesitou.
— Não há chance alguma.
(“Muito mais que uma princesa”, pag. 109-110, de Laura Lee Guhrke.)
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